16 de mai de 2009

DE MANARÁS À TERRA DOS HOMENS FELIZES

Maio é um mães oportuno para se falar das mães. O conto que segue faz referência àquela que não mede esforços para fazer feliz aqueles que ama e que é fruto de suas entranhas.

Na terra das manarás os reis proibiram os filhos de conhecer suas mães. Logo ao nascerem os recém nascidos eram deportados à cidade dos prantos, um vale entre as montanhas do Líbano. Lá eram criados pelos ermos, homens que, de tão marcados pela dor, pareciam desertos, e ao atingir cinco anos, os meninos seguiam para a vila dos combatentes e, as meninas, algumas eram vendidas para os mercadores de pedras, e outras, escravizadas na aldeia da pedra negra até crescerem e, serem dadas em casamento.
Em Manarás o clima era de constante treva. Um nevoeiro ameaçava em todo instante desaguar uma tempestade. Os semblantes sombrios eram vistos a qualquer hora do dia. Nessa terra, diziam os mais velhos, a esperança havia se posto por trás da grande montanha, um local extremamente alto e que, segredava a tradição dos antigos, em seu sopé, pelo lado leste, moravam os homens felizes. Acreditavam eles que de lá viria a luz que os tiraria das trevas quando se completasse o tempo.
Aconteceu que Tácita uma das meninas criadas na aldeia da pedra negra, engravidara. Temerosa ante o que aconteceria a seu filho revelou ao esposo que pretendia contornar a montanha e encontrar a terra dos homens felizes após os dois rios que delimitavam o território. Sabendo da perseguição que sofreria, ao início da noite, pôr-se logo em marcha. As candices, répteis alados, os espiões da floresta, vagueavam de um lado a outro, caçando os que pretendessem fugir do território negro.
Tácita embrenhou-se floresta adentro. Desde a juventude não se conformava com o absurdo que apregoava aquele tirano príncipe. Recusava-se tomar a porção feita de ibogaina, um ungüento de raízes que servia de entorpecente às mulheres grávidas. O remédio as deixava qual zumbi.
Esguiando-se para passar entre a rocha e a corrente da cachoeira que caía forte, a mulher que confundia seus cabelos com a noite e envolvida de um silêncio sideral, aos poucos chegava ao limiar da terra que reinava a luz e da qual ouvira falar como sussurros de esperança quando presa nos cárceres subterrâneos da aldeia.
Ao ultrapassar o último obstáculo, o penhasco de melato, a mulher de olhos negros e graúdos, vislumbrou sob o véu da manhã que despontava, um tapete de águas límpidas e puras às quais adentrou afoitamente. A água cobria-lhe o tornozelo, subiu aos joelhos e muito rápido chegou ao pescoço e, quando menos esperava estava à nado. As correntes d´agua a puxaram para a areia.
Banhada pela cálida luz que refletia nas gotas de água espalhadas em seu corpo, Tácita toca seu ventre com as duas mãos e ali trava um diálogo silencioso com seu bebê. Respira aliviada. A jovem lembra-se do terror de antes e ver-se na obrigação de um dia retornar e levar a luz à terra das Manarás, a terra que separou os filhos de suas mães.

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