15 de fev de 2009

UM CONTO SOBRE ORAÇÃO

Ao longo o avistei. Tratava-se de uma construção fabulosa. A luz do sol banhava-o fazendo resplandecer em suas paredes altaneiras beleza e harmonia irradiantes. Seu formato recordava-me um diamante, suas linhas arquitetônicas concêntricas avultavam uma característica inusitada: o Castelo não possuía teto.

Desejei adentrá-lo.

Embrenhei-me na mata fechada que separava-me da esplendorosa construção. Pondo-me em marcha multiplicaram-se as dificuldades .


À pouca distância de chegar às portas do castelo observei que monstros horripilantes precipitavam-se uns sobre os outros. Eram figuras hibridas e zombeteiras. Por uma fração de segundo transluziam um semblante de beleza, no entanto, efêmeros, esmaeciam como véu desvelando a realidade que se tinha por trás. Um dos monstros, repleto de olhos espalhados em seu corpo aproximou-se e com uma garra afiada perpassou meu antebraço. Seus vários olhos piscavam numa disritmia alucinógena.

Em meio aos seus rosnados pavorosos escutei o seu nome: ‘dispersão’, assim chamou uma outra criatura, esta era velhustra, envergada e trazia envencilhado às costas um pesado embrulho. Murmurava litanias que evocava desespero e noutros momentos esbravejava imperativos imprecatórios: ‘você não vai conseguir’, ‘isto não é para você’, ‘veja só quem é você’. A esta última frase mostrou-me uma foto minha enlameada.

De seus lábios ressequidos e virulentos ouvi um riso entrecortado por lances de tossidos que alteavam à medida que fazia quedar minha cabeça.

Olhando o chão putrefato, cheio de visgo enxerguei algo inaudito, um filete de água mui límpida e transparente. Ao observar melhor percebi que vinha dos rumos do Castelo. Isto foi o suficiente para que eu erguesse novamente o olhar. Fixei-me na porta de entrada do Castelo, encimada dum emadeiramento com a epígrafe: “NUNCA DEIXE A ORAÇÃO”.

O agouro dos monstros aumentou e com ele o furor. Joeiravam maus dizeres eivados de ódios e votos mórbidos. No entanto, uma voz interior distinguia-se das demais e como um vetor orientava-me, encorajava-me e conduzia-me: “não pares, Eu sou a porta, Eu te escolhi, prossiga”.

Ao chegar aos umbrais da porta os percebi respingado de sangue. Uma paz de efeito inenarrável envolveu-me e fez-me compreender que nunca devo deixar a vida de intimidade com o Senhor. Descobri ali que a oração precisa ser perseverante.

É no Senhor que devo fixar-me e não nos meus pecados e fraquezas que tentam por primeiro esvair a reserva preciosa da oração.


Vanderlúcio Souza