30 de set de 2011

Cliques da Vida

  Estética da Imagem
Análise do blog Cliques da Vida e breve reflexão sobre a história da imagem

Dom e técnica são dois elementos que ao serem aliados podem conceber verdadeiros gênios. Isto em qualquer profissão. Produzir símbolos significantes que retratem a realidade, como na fotografia, por exemplo, é uma verdadeira arte.

Neste trabalho será tratado em linhas gerais  sobre a história e influência da imagem na vida do homem e  analisadas fotografias do blog Cliques da Vida de autoria do fotógrafo Maciel Silva. O gosto do artista pelo ofício, as técnicas empregadas, a apresentação do material e o principal, a exposição das peças e a difusão de sua mensagem serão itens contemplados na abordagem.

Uma entrevista com o autor e um passeio pelo acervo “Cliques da Vida” servem de plataforma para a  pesquisa. Os subsídios dados em sala de aula encontram-se presentes como norteadores ao longo da análise que espera apresentar um trabalho sistemático acerca do objeto estudado.

  I - A imagem através dos tempos

O homem em todas as fases da história pretendeu de alguma forma congelar a fera indomável do tempo que, irrepreensível, corre veloz. As pinturas rupestres já seriam uma dessas tentativas. Mesmo se não houvesse a consciência de registro histórico, o homem queria reproduzir o cotidiano, aquilo que lhe chamava a atenção e fazia parte de sua realidade.

As eras se passaram, a inteligência expandiu-se e com ela o desenvolvimento de técnicas e artefatos que pudessem da melhor maneira reproduzir o ordinário ou os sonhos e pesadelos de cada época, suas personalidades e fatos marcantes.

A história bem poderia ser contada apenas em imagens. Aliás, por muito tempo assim o foi. Na  idade Média a pintura e a escultura foram recursos utilizados como meios de contar a uma população majoritariamente analfabeta a história, especialmente os episódios relacionados ao sagrado. Neste ponto, teve significante atuação e influência a Igreja Católica que registrou fatos importantes através de grandes artistas em  obras que até os dias de hoje enchem os olhos de quem as contempla.

Afresco A Escola de Atenas. 
Na Grécia antiga, Platão não era afeito às reconstituições artísticas, pois só concebia a teoria do Hiperurâneo; Já Aristóteles era conivente com a representação do mundo real. No célebre afresco de Rafael no qual retrata a A Escola de Atenas tal realidade pode ser facilmente identificada. Ao centro da imagem encontram-se os dois baluartes da filosofia grega, Platão e Aristóteles. O primeiro aponta para o alto, indica o mundo ideal, enquanto o segundo com dedo em riste indica ao leitor a realidade terrena.
  
II – Ditadura da imagem e simulacro

Hoje é impossível conceber um mundo sem a imagem, aliás, vivemos até o que alguns classificam  de ditadura da imagem.
A imagem, como força de expressão e comunicação, exerce um grande poder em nossa sociedade. Vivemos em uma época na qual a mídia se estabelece como um imperativo, como uma grande força que influencia, dirige e, muitas vezes, manipula corações e consciências. É a suposta “ditadura da imagem” que tem estabelecido o exterior, o que aparece aos outros, como a única verdade e valor”.[iii]

Ainda que pareça verossímil a representação não é o ente em si. Toda imagem é, absolutamente, analogia. E a analogia, por sua vez, é restrita a uma série de condicionamentos. “Toda representação é convencional, por mais analógica que seja. A fotografia, por exemplo, lança mão da objetiva e de filtros”, Gombrich (2007).

A sociedade da imagem é capaz de gerar o surgimento de uma cultura narcisista e hedonista a ponto de mergulhar em seu ideal de verdade  os valores e princípios adquiridos ao longo dos séculos. Desta feita, alguém sob a ditadura da imagem pode criar conceitos irreais da realidade. Uma pessoa que conhece a África a partir, apenas, do que é noticiado na televisão brasileira facilmente pode rotular o país como um imenso safári, circundado de deserto e habitado por famintos.

No discurso pós-moderno o conceito do simulacro foi retomado por pensadores como Deleuze e Baudrillard. O termo, na idade antiga, predominou na obra o Sofista de Platão.

Baudrillard
Baudrillard na obra Simulacro e simulação busca situar a relação entre imagem e realidade dentro da época em que vivemos marcada pela saturação da imagem e excesso de informação. O autor infere que a realidade é anulada mediante a hiper-realidade emergente.“A simulação já não é a simulação de um território, de um ser referencial, de uma substância. É a geração pelos modelos de um real sem origem nem realidade: hiper-real”, (Baudrillard 1981).

Os simulacros criam situações parecidas com a realidade sendo apenas meras representações da realidade. O filme “o show de Truman” explicita muito bem tal conceito.

A película apresenta a teoria do “Grande irmão”, hoje, já bem conhecida dos  brasileiros devido aos reality shows. Para o personagem Truman Burban interpretado por Jim Carey, a realidade era apenas o que ele via, uma representação da realidade.

Abaixo, trailer do filme Show de Truman

Seguindo o raciocínio do Simulacro em Baudrillard, Truman é a figura do homem deste século que vive uma hiper-realidade como se fosse a realidade. Numa análise de caráter mais psicológica do filme se poderia chegar à conclusão  que, de fato, o real é mais contundente do que o excesso ou a manipulação das imagens. Pois, como descreve o roteiro do filme algo impulsionou o Truman a romper a esfera da irrealidade. Pensando deste modo a hiper-realidade passa de síntese à antítese possibilitando nascer uma nova síntese.

III.  A pesquisa

            A obra pesquisada neste trabalho é fotográfica. Encaixa-se nos conceitos de analogia e realismo citados por Jacques Aumont. A tentativa de unir idéia e forma norteia o trabalho do fotógrafo em estudo, muito  embora ele não esteja ao par dos conceitos filosóficos implícitos em seu trabalho e peças.  

III. I. Como tudo começou

Tudo começou com a compra de uma câmera digital Canon PowerShot A460, adquirida em sua cidade natal, Cedro (CE).  Foi o suficiente para que Maciel Silva, entrevistado deste trabalho, saísse fotografando. Começou por diletantismo, hoje o faz profissionalmente.

Desde o início desenvolveu preferência por clicar pessoas e a natureza. Jovem e conectado com as novas tecnologias as utilizou como meio de difundir o que era apenas uma paixão. Na era digital soube aproveitar os recursos cada vez mais aperfeiçoados dos artefatos que registram a realidade através da luz.
Chegava a passar o final de semana inteiro fotografando. O resultado era postado em redes de relacionamento e compartilhamento de notícias. Seus primeiros cliques foram em borboletas e flores no jardim da  residência de um amigo.
Como próprio de uma cidade do interior alguns moradores não se demoraram a rotular o rapaz de louco, dada suas atividades. As críticas não pararam o talento, antes, impulsionaram-no. Por outro lado surgiram os apreciadores de seu trabalho.

Um caso pitoresco aconteceu com o fotógrafo. Certa vez recebeu um comentário elogioso em uma fotografia sua na rede de relacionamentos  Orkut. Adicionou o contato à sua lista de amigos e no decorrer das conversas se descobriram conterrâneos. O novo amigo, Willian Conrado, percebeu o talento do moço  para a fotografia.

Alguns meses depois o cedrense que morava em Fortaleza indicou a Maciel uma empresa que estava iniciando atividades no ramo da fotografia e seria uma oportunidade ímpar para que ele pudesse desenvolver seu potencial. O resultado foi que em quinze dias Maciel deixou a cidade do Cedro rumo a Fortaleza “a busca de dias melhores” como registrou em seu perfil no microblog Twitter.

Hoje ele fotografa casamentos. Praticamente todo final de semana há serviço, sem contar os trabalhos extras que surgem. Aspira aperfeiçoar-se no ofício. Participa de constantes treinamentos, oficinas e pretende cursar faculdade. “Talvez jornalismo”, disse.

Mas em meio às novidades, cursos, workshops a paixão do fotógrafo pelo Cedro mantém-se viva. Faz  recordar a paixão do estadunidense e também fotógrafo Ansel Adams cujo primeiro local de seus cliques foi no  Yosemite National Park, local que voltou ano após ano e onde se tem as suas melhores fotografias.

Indagado sobre qual lugar desejaria fotografar, não titubeia na resposta. “ O açude Cedro”. O local é um ícone da região, traz em si um pouco do drama nordestino ou da solução a este drama, a abundância de água.  “O papa” é a personalidade que desejaria e clicar. E faz planos. “Na próxima Jornada Mundial  da Juventude, em 2013, no Brasil eu irei fotografá-lo”,arrematou.

IV. A mensagem

Uma máxima afirma que todo texto escrito é produzido para ser lido. Da mesma forma podemos dizer sobre a  fotografia. Toda imagem é produzida com fins à contemplação ainda que seja de um único vidente, quiçá, o próprio autor.

Na entrevista que serviu de base deste trabalho Maciel afirma que seu desejo é, a cada fotografia sensibilizar o espectador  de seu trabalho. “Acho que a curiosidade, cada ângulo que procuro, tento comover as pessoas sobre a realidade que eu vejo”, descreveu.

IV.I. Momentos marcantes

O nascimento do sobrinho e a alegria de estar com os amigos foram momentos que impulsionaram seu gosto pela fotografia. Talvez por isto suas imagens tragam um forte apelo realístico. 

O autor busca transmitir o que ele ver, muito embora saiba que o objeto circunscrito adquire autonomia e capacidade de comunicar coisas que estão para além de sua visão.

Por outro lado quem ver o resultado final, recebe uma imagem mediada, “manipulada” por outrem. Daí retornamos aos conceitos já esboçados no início do trabalho. Em suma, toda imagem é analogia.

IV.II. Sentimento e profissionalização

Fotografo não precisa ter bons equipamentos, ele precisa ter sentimentos e visão fotográfica”, disse Maciel ao citar uma frase que para ele explica o que não pode faltar a um profissional da imagem.

O modus operandi do autor em questão passa necessariamente pela premissa “behind the lens”. O close no detalhe é o diferencial em suas produções e o olhar atencioso a imagens do cotidiano. Assim, um par de alianças custodiado pelo sol, o par de pregadores no varal ou o carro de coleta de lixo tornam-se eloquentes mensageiros de um código  que, embora mediado pelo  profissional e apetrechos técnicos, consegue interpelar o espectador.


V. Análises


Foto com mais de 20 mil downloads 

Foram alguns de seus primeiros cliques no jardim da residência de um amigo. As fotografias foram feitas à luz natural. A segunda imagem embaça o plano de fundo para dar destaque à borboleta que está no primeiro. Algo simples mas que retoma ao importante ensinamento que o entre representado não é pura realidade.

Fotos de borboletas são algumas das mais apreciadas, talvez pelo colorido próprio do inseto. O close ajuda na contemplação. É impossível ao olhar humano, ao menos por muito tempo, vê o inseto fazendo suas atividades de alimentação ou trabalho de tão perto e por tão vasto tempo.

A terceira imagem remete a mais um dos ícones do sertão nordestino. O sol inclemente que se despede do dia e da árvore que resistiu a mais um expediente. A passagem para a noite deixa reviver a esperança com os lampejos de luzes do céu ponteado por escassas nuvens.

V.I. O sobrinho 



            Para Maciel esta é a imagem que lhe inspira no serviço de fotografia. A fotografia  do sobrinho, ainda bebê, que ruma para um horizonte desconhecido.

            Segundo uma pesquisa do site Adweek de janeiro de 2011, feita com seus internautas, imagens com bebês, são uma das que mais comovem o público.  A pesquisa também apontou que filhotes de cachorros e imagens do nascer do sol figuram entre os três primeiros lugares.

  
            V.II Improviso e realidade




            “Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça[vii]” também vale para os fotógrafos. A foto da moça na vassoura foi totalmente de improviso e o resultado muito bom.

            Nas fotos espontâneas o fotógrafo deve ficar invisível e deixar a cena acontecer. Ainda é aconselhado desligar o flash, tirar muitas fotos, usar o zoom e registrar a emoção das pessoas[viii].

Na foto da bicicleta, o efeito acinzentado aproxima o espectador do estereótipo árido que se tem no imaginário coletivo sobre o nordeste. Mas o autor pretendeu transmitir a tranqüilidade que é a vida no interior.

Por outro lado uma imagem transmite informações que estão para além da conotação dada pelo autor. Numa análise de situação como não se questionar diante da imagem em saber que ainda existem residências que são feitas de taipa nos rincões do estado?

Já na imagem do pássaro é capaz de muitos se comoverem com o pássaro preso em detrimento ao menino que igualmente está cativo numa situação de pobreza e desigualdade.

Maciel evita dar nomes às suas fotografias. E confessa o porque. “Certa vez  assisti ao filme "Repórteres da Guerra" o mesmo falava muito bem dos fotógrafos. Um deles cobriu uma guerra e mostrou as imagens para o jornal. Quando a imprensa perguntou qual o título ele daria para as imagens. O mesmo afirmou que não dá nomes às imagens dele, deixa que as pessoas façam um título importante. O mesmo digo sobre minhas imagens, cada vez que coloco uma imagem que registrei eu deixo que os leitores façam sua análise que vê na fotografia”, exemplificou.


V.II  Cliques da Vida

A idéia do blog surgiu como um meio de divulgar suas fotos. O nome foi apenas uma conseqüência do costume de registrar cenas do cotidiano no Cedro.

A foto que deu origem ao blog é uma espécie de denúncia do autor. O menino enquadrado (imagem à esquerda) representa uma legião de crianças privadas de seus direitos. “Por que nossas crianças trabalham? Por que sofrem tanta violência? Infância X trabalho,combina?”, questiona na postagem que acompanha a foto.

O repórter fotográfico João Roberto Ripper, do movimento Imagens Humanas é um defensor do papel social da fotografia. Tema que segundo ela é relaxado pela grande mídia que preza em manter o sistema. “A gente trabalha porque acredita no ideal, porque gosta do trabalho. E o trabalho do jornalista tem que ser transformador e a gente vai ter que buscar isso, cada um dentro do seu grau de consciência”[x], determinou.

V. II.  As melhores

São mais de 200 postagens só no blog. Também mantém perfil no Orkut, Facebook, Twitpic e Picasa com imagens. É difícil escolher a melhor imagem como foi pedido na entrevista, mas conseguiu selecionar quatro peças.





O movimentos dos pregadores sob o seu azulado, o torrão ícone do sertão,a velha ferrovia em sua bifurcação e o olhar acuado do gato explicam bem o porque do nome do blog e sua mensagem, mostrar as cenas da vida através do clique.
Comover, denunciar, entreter e registrar. Um ofício que une paixão e profissão de um jovem que busca dias melhores, não apenas para ele, mas para o mundo com o qual atinge com  suas peças.

 V. III. Casamentos e fé


O zelo pelo detalhe faz a diferença na produção de imagens dos casamentos que fotografa como a imagem (acima) do par de alianças ladeado pela luz do fim do dia que emocionou os nubentes quando viram no álbum de casamento.

Fé é outro tema recorrente no Cliques da Vida. Uma clássica é a imagem do quadro de santa Luzia (ao lado) com duas velas. O altar é na casa do artista em Cedro durante os festejos da santa que acontece a cada mês de dezembro.

Ainda no campo da religiosidade ganha destaque o registro de eventos com artistas católicos por quem demonstra estima e admiração. Suas últimas fotos nesta categoria são do evento Festival Halleluya (aqui e aqui) que aconteceu em Fortaleza no mês de julho.

São imagens feitas com o olhar de um espectador que no meio da multidão registra seu gosto musical, estilo de vida e percepção fotográfica.

V. IV. Por fim, o Cedro

A paixão pela cidade natal é descrita, além das fotos, pelo hino. “ Oh! terra de mil encantos, teu passado varonil, uma história em cada canto, um pedaço do meu Brasil”. É essa  história em cada canto que move o fotógrafo a um dia fazer um ensaio sobre a terra, em especial, o açude Cedro, mostrando sua beleza, historicidade e fascínio.

Neste último anexo algumas fotos da cidade, a verdade de personagens da cidade ligados ao fotógrafo, tia-avó, cunhada e amigas. O recurso do preto e branco é utilizado por Maciel e o objetivo é cambiar o olhar do “leitor” para enxergar além das simples representação. 

Conclusão

Sempre e todos os lugares e gerações a história foi contada com o auxílio da imagem. As técnicas foram aperfeiçoadas mas a essência é a mesma, um mediador retrata o que ver e compartilha com seus coetâneos e deixa um legado para gerações futuras.
Assim como em um texto, isenção e objetividade devem ser buscados. No entanto nenhuma imagem é  cem por cento pura. A mediação humana e técnica interferem  no cenário apresentado.
Maciel Bezerra, o entrevistado do trabalho vive o momento histórico da democratização da imagem, ou da produção da mesma. Com as câmeras digitais, facilidade de compartilhamento e feitura de álbuns entrou num espiral irreversível do progresso da imagem




[ii] (Scuola di Atenas no original) é uma das mais famosas pinturas do renascentista italiano Rafael e representa a Academia de Platão. Foi pintada entre 1509 e 1510 na Stanza della Segnatura sob encomenda do Vaticano. A obra é um afresco. (plugado de http://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_de_Atenas). Vide anexo 1.
[iii] Adriano Zandoná é  padre, formado em Filosofia e Teologia e articulista do Sistema Canção Nova de Comunicação. Artigo “As armadilhas da imagem x a beleza da verdade”, plugado de http://www.cancaonova.com/portal/canais/formacao/internas.php?id=&e=10331
[iv] Vide anexo 2.
[v]  Vide anexo 3.
[vi] Vide anexo 4.
[vii] Frase dita pelo cineasta Glauber Rocha, no início do cinema novo.
[ix] Vide anexo 5
[xi]  Vide anexo 6
[xii] Vide anexo 7
[xiii] Vide anexo 8
[xiv] Vide anexo 9
[xv] Vide anexo 10

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